Ela abre e fecha suas caixas onde dormem seus segredos mais íntimos:
em fotos, cartas, mails, sonhos, palavras, citações e frases feitas. Muitas vezes fala depressa e muito baixo, de propósito; em seguida sua voz torna-se clara e pura. Demônio e anjo; criança e mulher; ama e puta; uma menina que ama a vida, tem sede de vivências, fome de prazer.
Audaciosa, intensa, contraditória, arteira, sensual, tímida, libido a flor da pele, provocadora, vive a beira do proibido e do profano. Cheia de medos corteja o perigo. Não gosta de mentiras. As vezes brinca de mudar de personagem: torna-se mil mulheres em mil expressões e um minuto.
No vasto jardim selvagem, cercado de muitos jardins, por um dos caminhos da vida, a vi pela primeira vez. Tinha um andar rápido, flexível, como de uma moleca de pernas longas. Sempre com as mãos nos bolsos, possuía uma graça particular, quase masculina. Levava uma mochila amarela, quase infantil. Quando vi suas mãos pela primeira vez, tive a certeza de perceber claramente seu caráter reto e generoso. Caminhamos lado a lado. Logo conversamos muito, ou melhor, ela falou bastante.
Subitamente sacou da mochila um bicho de pelúcia estranho, muito peludo, quase um ET que começou a falar com voz eletrônica. Disse:” Vou contar o conto do Segredo da Pedra que Canta……há muito tempo viviam numa muito pequena vila, ao lado da floresta, um menino feio e uma menina linda. Andavam chateados porque seus pais viviam sempre muito tristes ou de mau humor. Passou uma bruxa boa e falou:

” Para trazer de volta alegria na alma dos pais, os filhos deveriam buscar a Pedra que Canta; só ela tudo muda, só ela traz a Felicidade.”
“Mas onde vamos encontrar essa pedra?” perguntaram os meninos.
”Isto que é o Segredo. Só posso dizer: procurem nos seus sonhos que ali encontrarão”.
Os irmãos então puseram-se a dormir na floresta ali perto. Sonharam com um cavalo branco, que contou logo o segredo; falou de uma cachoeira muito grande, onde só dá para ir voando no dorso de uma águia. Mas ai o cavalo sumiu. Ainda assim eles acreditaram no sonho e a grande águia branca passou. Com medo de voar, voaram até a cachoeira linda e barulhenta, onde haviam muitas pedras. Uma delas cantava uma melodia maravilhosa. Adormeceram. Quando acordaram já estavam em casa, transportados pelo sonho,mas a melodia continuava e preenchia toda a casa. Viram então os pais que não paravam de olhar para a Pedra que Canta, que estava agora logo ali, em cima da mesa. Sorriam, riam e choravam ao mesmo tempo, porque o choro e o riso muitas vezes se encontram quando fluem em abundancia.
A voz eletrônica deu a Moral da historia e desligou-se: Quem acredita num sonho, vive o sonho.”
A Menina Levada desligou o ET e disse: ”Eu gosto dessa historia boba, de tão boba que ela é….”
Ai parou. Virou-se para mim, e muito séria perguntou:
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”Você conhece a lenda de Eros e Psiquê?”
“Conheço sim;é uma de minhas preferidas” respondi.
“Voce acredita que Eros tenha voado, para nunca mais aparecer, fugindo de Psiquê, só porque ela quebrou aquele pacto deles de se amarem na escuridão?”
A Menina não deu tempo para minha resposta; foi logo dizendo:
“Eu acho que não. Ele fugiu quando iluminado pela luz daquele candieiro, viu a paixão imensa de Psiquê e assustou. Quando ele queria mesmo era só sexo. Assustou e voou. Olha, se quiser eu faço sexo com você agora……gostei de você e gosto de transar, assim de repente”.
Por uns instantes me perdi em pensamentos e desejos; quando olhei para o lado, ela já não estava mais ali. Gritei alto:
“Meninaahh, onde você está? Meninaaaahhhhhhh.”
Talvez por capricho, ou simplesmente por amor ao silencio, não respondeu e escondeu-se nas sombras. Haviam muitas.
Não voltei a encontra-la.
Olivier Perroy
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