Uma reflexão de Rubem Alves em seu livro Desfiz 75 anos .Tenho nas mãos um
relógio de sol. Você deve achar estranha essa declaração porque relógios de sol são, normalmente objetos grandes e
pesados, feitos de pedra ou ferro. Mas o meu relógio é diferente.
Ele é do tamanho de um daqueles antigos relógios de bolso, com dois milímetros de grossura.
Prodígio da tecnologia moderna? Não. Prodígio da tecnologia medieval.
Comprei-o numa lojinha da cidade de Carcassone, no sul da França.

Dizem que Carcassone, entre todas as cidades medievais que restaram, é a mais bem preservada.
Um turista que viaje por aquela região não deve deixar de visitá-la.
Carcassone era ponto de descanso dos peregrinos que iam para Santiago de Compostela. Aqueles minúsculos relógios de sol, eles os levavam como colares à volta do pescoço para se orientarem sobre as horas do dia.
Gravada no metal dos relógios havia uma sóbria advertência: Tempus Fugit – o tempo está fugindo.
Mas por toda a cidade, nas inúmeras lojinhas, frequentadas pelos turistas, vendiam-se também placas de louça, metal, madeira com a inscrição: Carpe Diem – colha o dia.
Tempus Fugit, Carpe Diem. A presença dessas duas frases latinas deixou-me intrigado.
E isso porque, muitos anos antes de visitar Carcassone, eu havia escolhido precisamente essas duas frases como resumo da minha filosofia de vida.
Coincidência? Eu poderia ter escolhido outras frases. E não havia nenhuma razão lógica para que elas se encontrassem em todos os lugares daquela cidade. Veio-me então a suspeita inevitável: será que em algum século passado eu vivi aqui e que essas frases ficaram gravados na minha alma até que um acidente qualquer as fez emergir até minha consciência?
Qualquer pessoa que visitar meu escritório verá que nas duas portas, essas frases estão gravadas.
Sou uma ampulheta. A areia fina não para de escoar de cima para baixo.
É impossível não imaginar o momento quando o último grão de areia vai escoar.
Então será a morte.
Ser sábio é viver bem.
O sábio é alguém que sabe degustar a vida.

E embora pareça estranho o que vou dizer, é a consciência da morte que desperta em nós a capacidade de sentir o gosto bom da vida.
A consciência da morte põe tempero na vida; todos os gostos, todos os cheiros, todas as cores, todos os sons ficam mais intensos exatamente porque tomamos consciência do seu caráter efêmero.
No dia a dia somos enrolados pelas rotinas e não sobra muito tempo para pensarmos sobre a vida.
Mas quando estamos doentes, em especial quando um filho nosso está doente, a ideia da morte se impõe.
Nietzche passou por um longo período de doença. Vejam o que ele escreveu a respeito disso:
(…) é assim que, agora, aquele longo período de doença me aparece: sinto como se, nele, eu tivesse descoberto de novo a vida, descobrindo a mim mesmo, inclusive. Provei todas as coisas boas, mesmo as pequenas, de uma forma como os outros não as provam com facilidade. E transformei, então, minha vontade de saúde e de viver numa filosofia.
Fernando Pessoa teve a mesma experiência.
No seu poema “Tabacaria”, ele afirma: “Estou hoje lúcido, como estivesse para morrer”.
A consciência da morte torna a vida delicada.
Ela nos faz prestar atenção no “momento”, que é a única coisa que realmente possuímos.
Há muitos anos li o livro Viagem a Ixtlan.
O livro relata a experiência do antropólogo Carlos Castañeda com um feiticeiro iaqui que lhe ensinou a filosofia da magia.
Se realmente acontece ou se trata de pura ficção não faz a menor diferença.
A ficção é mais poderosa que a realidade.
Carlos tinha medo da morte. D. Juan lhe ensinou que a morte é amiga: ela torna mais pura a nossa vida.
A morte é nossa eterna companheira. Está sempre à nossa esquerda, à distância de um braço. (…) O que se fazer quando se é impaciente é virar-se para a esquerda e pedir conselhos a sua morte. Você perderá uma quantidade enorme de mesquinhez se sua morte lhe fizer um gesto, ou se a vir de relance, ou se, ao menos, tiver a sensação de que sua companheira está ali, vigiando-o. (…) A morte é a única conselheira sábia que possuímos. Toda vez que sentir, como sente sempre, que está tudo errado e você está prestes a ser aniquilado, vire-se para sua morte e pergunte se é verdade. Ela lhe dirá que você está errado; que nada importa realmente, além do toque dela. Sua morte lhe dirá: “Ainda não o toquei”. O antropólogo, perplexo, pergunta-lhe então: “D. Juan, que caminho seguir?” O bruxo lhe responde: “Não importa. Todos os caminhos conduzem ao mesmo fim. Escolhe, portanto, o caminho do amor…”
Consulto meu relógio de sol comparando-o com os ponteiros do meu moderníssimo digitalizado. O relógio de sol confirma: o digitalizado está marcando a hora certa.
Rubens Alves
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