A minha frequência nas redes sociais tem vindo progressivamente a diminuir.
Por razões várias, mas a que mais me afasta é esse discurso do ódio, que prolifera cada vez mais, arrastando-nos a todos. Todos os dias assistimos a um linchamento na praça pública.
Com a conivência dos meios de comunicação, cujas audiências aumentam significativamente, à medida que o cheiro do sangue se torna mais intenso. Convenhamos que Rui Tavares, numa crônica que escreveu ontem para o jornal Público, pôs verdadeiramente o dedo na ferida quando diz que a nossa vontade de odiar se tornou insaciável. A prova disso, e toda a gente já reparou certamente, é que os posts e as notícias em que não há motivo para zanga e ódio são muito menos frequentados, menos comentados, como se tivessem perdido o interesse. E os casos de linchamento sucedem-se a uma velocidade alarmante, indiciando o nível crescente de violência pulsional e implícita que alimenta o comportamento colectivo.
Basta estar nas redes sociais para se ser violentado por esta agressividade latente, basta seguirmos os perfis pessoais das pessoas com quem interagimos para nos apercebermos também como o nosso comportamento está a ser condicionado e manipulado. A esse propósito (e já vem tarde) leia-se e ouça-se a entrevista que deu Chamath Palihapitiya, um antigo executivo do Facebook, em que ele lamenta ter contribuído para essa ferramenta, que está atualmente a destruir o tecido social e as relações entre as pessoas. Em nome de quê?
Autora, ensaísta e poeta.
https://revistacaliban.net/redes-mentiras-e-%C3%B3dio-c54f34d2f69f
Ralph Fiennes, em “Spider”, Filme de David Cronenberg.
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