Qual o sentido da oração e porque nos convoca desde o princípio dos tempos?
Na profunda selva do Congo, lá onde nem o sol consegue chegar, em uma pequena cabana, coberta de folhas, uma família amanhece recitando: “No começo foi Deus. Hoje é Deus. Amanhã será Deus. Quem pode fazer uma imagem de Deus?” ]Ao mesmo tempo em algum lugar de Jerusalém, um homem sussurra ao amanhecer o dia: “Shema Yisrael, Adonai Eloheinu, Adonei Ejad”(“Escuta, oh! Israel o Senhor é nosso Deus, o Senhor é único!”) No Tibet, em um lugar coberto de flores, um monge de cabeça calva proclama: “Om mani padme hum”) (“Oh! a joia de Loto!”). Entre altares enfeitados por guirlandas, devotos de Bangalore cantam “Om namah shivaya!” (“Om! Reverências a Shiva!”).E ao despertar dos primeiros raios de luz através dos vitrais, ou ao pé da cama, ajoelhados, os fiéis cristãos recebem o amanhecer, louvando: “Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome…”

Nenhuma destas pessoas se conhecem e seguramente teriam dificuldade para entender as palavras entre elas. Porém, reúnem-se em um ato. É um ato totalmente isento de uso prático, mas se antepõe a qualquer ação do dia. Rezar.
O que é a oração e porque convoca tão universalmente a humanidade desde o princípio dos tempos? ]Diz Karen Amstrong, especialista em religião comparada: “Raras vezes nos permitimos dar voz aos nossos medos e ansiedades profundas. Estamos todos lutando por sobreviver. Não podemos permitir-nos o luxo de admitir nossas debilidades e nosso terror livremente. Tememos ser uma carga para os outros, não queremos aparecer frágeis ou vulneráveis diante dos desafios e das batalhas da vida. Nos protegemos sempre, especialmente através das palavras. Somos cuidadosos e defensivos em nosso uso da linguagem, tanto para apontar nosso sentido de self (eu), como para impressionar os outros. A oração serve para nos liberar e libertar e para usar o idioma num sentido completamente diferente.” A oração nos torna verdadeiros. A oração nos ensina a humildade e o despojamento.

“Jesus, queres minhas mãos para passar este dia ajudando os pobres e enfermos que o necessitam?
Senhor, hoje te dou minhas mãos.
Senhor queres meus pés para passar este dia visitando àqueles que têm necessidade de um amigo?
Senhor, hoje te dou meus pés.
Senhor queres minha voz para passar o dia falando com aqueles que necessitam palavras de amor?
Senhor, hoje te dou minha voz.
Senhor, queres meu coração para passar este dia amando a cada homem somente porque é um homem?
Senhor, hoje te dou meu coração.”
Madre Teresa de Calcutá

Quem ora cultiva sua confiança e entrega a uma força superior ou mesmo à vida. A oração transforma o coração.
“Homens e mulheres sentem também que, apesar dos horrores que a nossa carne está sujeita, existe uma bondade essencial nas coisas, uma beneficência que não está somente fora de nós mas dentro de nós. As orações buscam invocar este poder e força benevolentes que nos permitirão finalmente iluminar a escuridão nas profundidades de nosso ser.” *Como têm proclamado os místicos de todas as tradições, a oração não pede ela somente dá. O que dá? Amor, gratidão, comunhão, serviço desinteressado, adoração. **

“Deus meu, põe luz em meu coração!
E em meu ouvido luz,
e em minha vista luz,
e em minha língua luz,
e à minha direita luz,
e à minha esquerda luz,
e por cima de mim luz,
e por debaixo de mim luz
e, frente a mim luz,
e detrás de mim luz.
E põe em minha alma luz,
e dá-me mais luz, oh! Senhor!
Engrandece meu peito
e faz que minha vida seja leve.”
Oração do peregrino
Islã

Amém
*Karen Amstrong
**Texto Fabiana Fondevila, Revista Sophia
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