Cidades que se originaram de antigas reduções franciscanas, fundadas entre os séculos XVI e XVIII. Surpresa maior ao constatar o bom estado de conservação em que se encontravam as igrejas, ao contrário das missões jesuítas que foram destruídas após a expulsão dos missionários.

O livro EL ESPEJO SALVAJE – IMAGINERIA FRANCISCANA EM LA MIRADA INDÍGENA, foi o resultado dessa descoberta. O texto, sobre a conquista espanhola na região do Rio de la Plata, narra o momento crucial da desestruturação da cultura autóctone e a implantação da cultura européia.O título sugere esse olhar europeu que se recusou a ver esse OUTRO, o aborígine. Olhar outro homem é olhar para si próprio é olhar-se no espelho. Tal qual Narciso, o europeu, olhou a si mesmo e reafirmou sua condição européia.
O descobrimento da América como escreveu Bartolomeu de las Casas, “abre um tempo tão novo que a nenhum outro se assemelha’’, em sua História das Índias.Tempo do maior processo histórico, conhecido como processo civilizador. Expedições que aportaram no estuário do Rio da Prata no século XVI abalaram o universo dos Guaranis. A fundação da vila de N.SRA. de Assuncion, em 1537, iniciou o drama entre os conquistadores e os indígenas. A presença missionária dos Franciscanos, Jesuítas e Dominicanos abriu o difícil dialogo.
Reduzir os índios não significou aprisiona-los, mas reconduzir, (do latim reducti). Reconduzi-los a fé cristã, concentra-los em pueblos e afasta-los do contágio das enfermidades dos brancos. Abandonando as suas crenças anímicas, o nomadismo, a nudez, a poligamia e a fome, entregaram-se sob a proteção dos missionários.

As missões franciscanas no Paraguai, (1580), como as missões jesuítas, (1607), além de iniciarem as plantações de algodão, milho, erva-mate, trigo, vinhas (vinho para as missas) e a criação de gado, formaram em suas oficinas, prateiros, escultores, pintores,fabricantes de instrumentos musicais ,entalhadores de pedras e artesãos que nos legaram uma arte mestiça original.O processo civilizador alem de se apropriar das terras em nome dos Reis Ibéricos impôs aos índios sua religião. A produção artística, inicialmente copiada dos modelos europeus, superou as dificuldades da reprodução de uma arte longínqua. Ao se mostrarem incapazes, expressaram uma estética nova. Como o Aleijadinho e as manifestações do Barroco Mineiro, os Guaranis interpretaram essas formas de maneira singular. O estilo barroco, importado da Espanha, forçou o Guarani a viver uma outra realidade e o trágico realismo das imagens, foi ingenuamente copiado. Cores fortes retiradas de pigmentos da terra, animais nativos foram empregados como elementos decorativos, originando uma arte que até os dias de hoje conserva-se perfeita e que poderíamos chamar de BARROCO HISPANO GUARANI. Apresentar essas igrejas, que resistiram ao tempo, é resgatar um tesouro esquecido da América Latina.
A expedição de Pedro de Mendoza ,chega ao Estuário do Rio da Prata (assim chamado como a porta para a Serra da Prata império das riquezas no Peru) em1535. Funda a cidade de Buenos Aires. Ao subir o rio, a procura de viveres, em 1537 funda N. Sra. da Assunção. Frades Franciscanos são os primeiros religiosos a estabelecer contacto com os Tupi-Guarani.Grupos étnicos habitantes do Sudeste do Brasil, nordeste da Argentina , da Bolívia e do Paraguai. Nômades cuja estrutura social se baseava nos laços de família. A linhagem familiar determinava a produção da tribo. Os casamentos entre parentes seguiam a tradição. As obrigações e os deveres do cunhado eram um sério compromisso. Os espanhóis ao se unirem as índias, desestruturaram a organização dos laços familiares romperam os compromissos e provocaram a desordem social. A generosidade do chefe era o atributo do poder. Os “chamanes”feiticeiros afastavam as enfermidades e conduziam o povo a uma terra sem mal, o paraíso.
Frei Luis Bolanos e frei San Buenaventura, descalços curavam os enfermos, entravam nas florestas e identificavam-se com os Guaranis e chamanes. Assim a presença franciscana atenuou a violência dos espanhóis. A retórica das Reduções era um ideal utópico. Os Franciscanos organizaram sua reduções sem muros e deixavam os indígenas prestarem as encomiendas ( imposto de trabalho obrigatório aos espanhóis) diferente dos jesuítas que muravam os espaços e proibiam a ação dos encomenderos. As missões religiosas ou reduções ocupavam grandes áreas. A igreja, aprimorava a pompa com edifícios pintados de dourado e assim impressionava a inocência nativa numa perfeita metáfora espacial para a conversão.O acesso era através de uma larga avenida, caminho da catequese. A grande praça, lugar e palco, das encenações religiosas da vida e morte do Cristo. A escola e o cemitério encerravam o ciclo do cristão. O amor dos nativos, pela musica e dança, atenuou a agressividade de alguns grupos e foram assimilados a liturgia como expressão estética.
As oficinas, serviam a cristianização, grandes mestres europeus ensinavam aos Guaranis, pintura, escultura e o uso das ferramentas. O estilo barroco importado da Contra Reforma era o modelo adotado. A ruptura dos espaços, a vertigem do “trompe l’oeil , as formas côncavas e convexas, o jogo de luz e sombra, levaram os índios a uma relação falsa com o universo traduzida na produção artística. O conhecimento lúdico dos fenômenos naturais e a liberdade foram imobilizados nas estatuas.O trágico realismo do barroco espanhol copiado ingenuamente pelos nativos os faziam identificar-se com o Cristo Caído Senhor da Paciência.O drama das cerimônias foi minimizado pela musica.O Teatro da Fé servia de instrumento útil a evangelização. A representação do inferno os aterrorizava. O conflito e assimilação a essa nova imposição cultural foi superado através da produção artística.

Surge uma arte mestiça de anjos de olhos azuis, de virgens brancas e rostos retilíneos, de frutas locais e animais como elementos decorativos.Um estilo barroco expressionista mostra o medo, a culpa, as crendices e os mitos ancestrais dos indígenas. As imagens hieráticas das primeiras igrejas de Atyra, Caazapá, Capiatá ,Tobati atingem um grau de aprimoramento em Yaguaron um dos mais belos retabulos barrocos de inspiração lusitana no sec XVIII – 1752.
Na arte como na vida o erro é o grande mestre. As mãos indígenas, no trabalho de copiar uma arte desconhecida, legou uma outra forma de expressão, diferente mas bela e original. O olhar de estranhamento do homem branco ao mesmo olhar de estranhamento do indígena provocou uma grande descoberta. Não das terras e do poder mas a identificação com uma arte desconhecida. O erudito e o popular encontraram-se nas mãos franciscanas e guaranis. Nasceu assim um patrimônio cultural singular no Paraguai. Olhar as imagens silenciosas e estáticas mais que ler documentos, nos levam a refletir no tempo.
O espelho selvagem é uma das faces da trágica e dolorosa história dos descobrimentos na America do Sul.
Anna Maria Martins
Club50mais




