O projeto em Kaispeicher marca um lugar que a maioria das pessoas em Hamburgo
. Arquitetos – Herzog & de Meuron
. Localização – Platz der Deutschen Einheit 1-5, 20457 Hamburgo, Alemanha
. Área do Terreno – 10.540 m2.
. Superfície Total – 125.512 m2.
. Ocupação do Solo – 5.745 m2
. Ano do Projeto – 2016
. Fotografias – Iwan Baan, Maxim Schulz

Entre o eixo hanseático e HafenCity
O projeto em Kaispeicher marca um lugar que a maioria das pessoas em Hamburgo conhece mas nunca realmente visitou. Ele converteu-se em um novo centro de vida social, cultural e cotidiana para os habitantes da cidade e para os visitantes de todo o mundo.

É muito comum que um novo centro cultural seja imediatamente associado ao atendimento de uma pequena parcela privilegiada da população. Para fazer da nova Filarmônica uma atração genuinamente pública, é imprescindível proporcionar, não somente uma arquitetura atrativa mas, também, uma atrativa mistura de usos urbanos. O complexo abriga uma sala filarmônica, um salão para música de câmara, restaurantes, bares, um terraço panorâmico com vista para Hamburgo e para o porto, apartamentos, um hotel e estacionamento. Estes usos variados combinam entre si em um edifício como o fazem na própria cidade. E como uma cidade, as duas arquiteturas contraditórias e sobrepostas do Kaispeicher e da Filarmônica garante sequências espaciais empolgantes e variadas: por um lado, a sensação original e arcaica do Kaispeicher, marcada por sua relação com o porto; por outro, o suntuoso e elegante mundo da Filarmônica. No meio existe uma extensa topografia de espaços públicos e privados, todos diferentes em caráter de escala: o grande terraço do Kaispeicher, que se estende como uma nova praça pública, responde ao mundo interiormente orientado da Filarmônica, construída sobre ele.

O coração do complexo é a Filarmônica em si. Ela surgiu como um espaço que coloca em primeiro plano os ouvintes e os músicos a tal ponto que, juntos, representam a arquitetura. A tipologia arquitetônica da filarmônica sofreu uma reformulação arquitetônica que é excepcionalmente radial na sua ênfase, sem precedentes na aproximação entre artista e público, quase como um estádio de futebol.

Arquitetura urbana para os amantes da cultura
A nova filarmônica não é somente um lugar para a música; é um complexo residencial e cultural em sua máxima expressão. A sala de concertos, com capacidade para 2100 pessoas, e o salão para música de câmara, para 550 ouvintes, estão incrustados entre os pavimentos de luxo e um hotel de cinco estrelas com serviços integrados como restaurantes, um centro de saúde e academia, além de instalações para conferências. O Kaispeicher A, um monumento da época do pós-guerra que, ocasionalmente acolhia eventos paralelos, agora se transformou em um vibrante centro internacional para os amantes da música, um ímã para os turistas e visitas do mundo de negócios. A Filarmônica será convertida em um marco para a cidade de Hamburgo e para todo o país. O bairro da crescente HafenCity será revitalizado, garantindo que seja não somente um satélite da cidade hanseática, mas também um novo distrito urbano.


O Arcaico Kaispeicher
O Kaispeicher A, desenhado por Werner Kallmorgen, foi construído entre 1963 e 1966 e utilizado como armazém até final do século passado. Originalmente construído para suportar o peso de milhares de sacos de grãos de cacau, agora empresta sua sólida construção para acolher a nova Filarmônica. O potencial estrutural e a força do edifício antigo foram utilizados para suportar o peso da nova massa que descansa sobre ele.

Nosso interesse no armazém radica não somente no seu potencial estrutural não explorado, mas também na sua arquitetura. O edifício robusto proporciona uma base surpreendentemente ideal para a nova sala da filarmônica. Parece ser parte da paisagem e ainda não é totalmente parte da cidade que agora cresceu até ele. Os armazém portuários do século XIX foram desenhados para refletir o vocabulário das fachadas históricas da cidade: suas janelas, cimentos, empenas e diversos elementos decorativos se ajustam ao estilo arquitetônico da época. Visto desde o rio Elba, estavam destinados a misturar-se com o horizonte da cidade apesar de serem armazéns desativados que não possuíam nem mesmo entradas de luz e ar.

Mas não o Kaispeicher A, que é um edifício de tijolos pesados e massivos, como muitos outros armazéns no porto de Hamburgo, mas suas fachadas arcaicas são abstratas e distantes. A grelha regular do edifício, com orifícios de 50 x 75 cm que não podem ser chamados de janelas, são mais estrutura do que abertura.

O novo edifício de vidro
O novo edifício foi extrudado da forma do Kaispeicher, sendo idêntico em planta ao bloco de tijolo do edifício mais antigo sobre o qual ele sobe. Entretanto, na parte superior e inferior, a nova estrutura atinge um tom diferente da forma tranquila e plana do armazém inferior; a ondulação do telhado se eleva desde o extremo leste inferior até sua altura total de 108
metros no Kaispitze (a ponta da península). A Filarmônica é um ponto de referência visível desde longe, conferindo uma nova marcação vertical à disposição horizontal que caracteriza a cidade de Hamburgo. Há uma maior sensação de espaço nesta nova localização urbana, gerada pela extensão da água e a escala industrial dos navios.
A fachada envidraçada formada, em parte, por painéis curvos, alguns deles esculpidos com aberturas, transforma o novo edifício, pousado sobre o antigo, em um gigantesco vidro iridescente cuja aparência continua mudando ao captar os reflexos do céu, da água e da cidade.


Entrada e Praça
A entrada principal do complexo Kaispeicher está posicionada ao leste. Uma escada mecânica, excepcionalmente longa, conduz a praça, a qual descreve uma leve curva de modo que não seja possível ver sua totalidade de um extremo ao outro. É uma experiência espacial, cortando diretamente toda a Kaispeicher, passando por uma grande abertura panorâmica com uma varanda que oferece vistas ao porto antes de continuar até a praça. Esta última, posicionada acima do Kaispeicher e abaixo do novo edifício, é como uma gigantesca dobradiça entre o antigo e o novo. É um novo espaço público que oferece um panorama único. Restaurantes, bares, venda de ingressos e hall do hotel encontram-se ali, assim como o acesso aos foyers da nova filarmônica.

A Filarmônica
Qual tipo de espaço terá a filarmônica? Quais preocupações acústicas e arquitetônicas foram levadas em consideração na sua construção? Qual tradição ressoa nesta sala em comparação com outras novas localizações, por exemplo, em Tóquio e Los Angeles ou o modelo em Berlim? Rapidamente ficou claro que a Filarmônica de Hamburgo seria diferente da Filarmônica de Sharoun. Somente as premissas: a localização, o porto e o armazém existente, convidam à mudança. Este é um projeto do século XXI que seria inconcebível antes. O que se discutiu foi a ideia fundamental da Filarmônica como um espaço onde a orquestra e o maestro estão situados no meio da platéia; aqui a arquitetura e a disposição dos estrados respeitam a lógica da acústica e a percepção visual da música, artistas e público. Mas esta lógica conduz a outra conclusão. Os níveis são mais penetrantes, grades, paredes e teto formam uma unidade espacial. As pessoas, combinação entre público e músicos, determinam o espaço, constituindo-o somente por elas. Sobre isso, se assemelha a tipologia do estádio de futebol que desenvolvemos nos últimos anos, a fim de permitir uma proximidade quase interativa entre o público e os jogadores. Também estudamos formas arcaicas de teatro, como o Globo de Shakespeare, objetivando explorar a dimensão vertical. A geometria complexa da sala une o fluxo orgânico com uma forma incisiva e quase estática. Caminhando, sentado, vendo, sendo visto, escutando… todas as atividades e necessidades das pessoas em uma sala de concertos são expressadas explicitamente na arquitetura do espaço. Este espaço que se eleva verticalmente oferece espaço para 2100 pessoas reunirem-se e desfrutarem da música. A forma imponente do hall define a estrutura estática de todo o volume do edifício e reflete na silhueta do conjunto.

Traduzido por Camilla Sbeghen
Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/804569/filarmonica-de-hamburgo-herzog-and-de-meuron
Fotos/Iwan Baan – 1.5.6.7.8.9.10.11.13
Fotos/Maxim Schulz/2.3.4.14
Capa/ http://images.adsttc.com
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