Aniversariante de setembro. O nome já diz tudo sobre ela. D. Vida Paternost completou cem anos,
sua vida, além da extraordinária longevidade merece ser conhecida pelo significado e beleza de sua história.

De um album feito no aniversário de 85 anos, em alguns momentos de sua vida
– “A felicidade no meu casamento com Sr. Virgílio Bruno Paternost, os dois filhos maravilhosos que tivemos, netos, bisnetos… muita paciência, simplicidade e aceitação dos acontecimentos da vida… ” Quando começa a falar, seu rosto bonito com olhos azuis impressionantes sorri sempre e transmite ternura, respeito e alegria repleta de uma naturalidade desconcertante, quando lembramos seu século de existência.
D. Vida traduz uma narrativa e comportamento novo quebrando os antigos arquétipos da velhice e de saúde.
Ela é repleta de vida…e curiosidade.
Ela gosta de conversar, gosta de viver e sua memória dos nomes e sobrenomes, datas e detalhes em sua história também são fáceis e claros…

Vida se preparando para assoprar a velinha
-“ Nasci na atual Eslovênia (antiga Iugoslávia), nos Balcãs. A língua eslovena (eslava, lembra a russa) e até hoje meus sobrinhos me visitam e também por umas oito vezes estive com eles em minhas viagens até lá. ” Seu português é perfeito, também aprendeu francês, costura e seu aprendizado escolar foi até o ensino médio completo.
-“Saí da Eslovênia com dezessete anos acompanhando a família de um diplomata, como babá de sua filha temporã, já era amiga da família e enviava todo o salário para meus pais. Foi também o início da minha independência trabalhando como babá da criança desta família. Fomos para Cap Ferrat, na Riviera Francesa, depois Paris, até chegarmos no Brasil, em 1939. Estava com vinte anos de idade e ainda acompanhando a mesma família quando começou a 2ª. Guerra Mundial e fiquei impedida de voltar à Europa”.
“O diplomata, chefe da família para quem trabalhava ficou muito doente e não foi possível continuar meu trabalho devido às dificuldades financeiras de meus empregadores”.

Recebendo amigos e seus familiares vindo da Europa
Vida ficou sem trabalho, sem poder voltar, sozinha e parecia sem perspectiva aqui no Brasil, quando sua coragem e determinação levaram-na a procurar outro emprego e foi trabalhar como governanta para uma família, aqui em S. Paulo.
-“Conheci meu marido, Virgílio Bruno Paternost, também esloveno, através da Cruz Vermelha, da qual participei ativamente aqui no Brasil durante a guerra. Enviava comida para a minha família que ainda se encontrava na Eslovênia”.
A guerra demorou o suficiente para Vida e Bruno se casarem e ficarem morando no Brasil. Após o fim da guerra, a Iugoslávia passou a ter um presidente comunista, Tito que acabou rompendo com Stalin e o governo russo tornando a então Iugoslávia na nação socialista mais liberal da Europa.
Conta que seu pai era diretor da mais importante gráfica de Ljubljana, na Eslovênia, quando no período da guerra os alemães ocuparam seu país, perseguiram altos funcionários e pessoas de influência e aparecendo na gráfica para inspeção, os funcionários da Gráfica esconderam seu pai… na chaminé da lareira e os alemães não conseguiram encontrá-lo!–“Minha mãe era uma grande costureira e foi com ela que comecei a costurar. A nossa casa era muito boa em Ljubljana, mas construí minha família aqui no Brasil”.

Com os filhos Miriam e José Carlos felizes na sua festa dos 100 anos
-“Tivemos dois filhos maravilhosos Miriam e José Carlos presentes e amorosos em minha vida até hoje. Vieram os netos e agora os bisnetos…
Hoje moro com a família de minha filha Miriam. Logo de pois de casada fomos morar na Via Anchieta, Peruíbe e Higienópolis em S. Paulo onde vivia sozinha até pouco tempo atrás”.
Quando pergunto sobre o que esses cem anos representam em sua vida e o que pode nos dizer sobre isso, D. Vida chega à conclusão que teve muita sorte na vida! – “As pessoas com quem convivi sempre foram pessoas do bem. A vida é difícil, mas enfrentamos os acontecimentos, a dor, os obstáculos e dificuldades da vida, o que é muito importante! A aceitação e a capacidade de enfrentar a vida, sem omissão, plenamente. É preciso ter coragem para viver”.

Amigos, filhos, netos e bisnetos comemorando seu 100 anos. Que privilégio!!
D. Vida confessa que é viciada em televisão, bons filmes e noticiários. Sua vista é ótima. Lê até sem óculos, escuta bem. Quando a deixei, acompanhada pela Miriam até o portão, olhei para o céu e agradeci. Sobre nós um céu azul grandioso e até a saída o perfume das flores no ar nos envolveu e acompanhou.
Existem algumas pessoas que irradiam sentimentos, emoções que não sabemos explicar. “Aura, carisma, são especiais”! E os anos de vida parecem acentuar essa transcendência…assim é vida.
Ina Rodrigues
As imagens foram cedidas pela família
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