Ah, que saudades eu tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais!
Aposto o meu salário de profissional liberal que dá pra contar nos dedos da mão esquerda de um ex-presidente de um país distante os caras que sabem que o trecho acima é de um poema e o nome do poeta! (*)
Quando eu estava na escolinha, obter informação pra fazer trabalhos era uma coisa duca! Conseguir figuras era assim: a gente procurava umas revistas velhas, ficava folheando, folheando e quando aparecia algo com uma vaga semelhança com o que a gente estava procurando, era briga de foice. Ganhava quem fosse o mais rápido pra cortar, pra esconder ou pra roubar. Se alguém se lembra do avanço tecnológico que foi o Desenhocopy, sabe que essa coisa era um livreto com espiral de alumínio, cujas folhas eram de papel de seda com silhuetas de figuras carbonadas esboçadas, sobre vários assuntos, as quais a gente podia “transferir” para um outro papel, passando o lápis, com muito cuidado, sobre as linhas da figura. Com um pouco de sorte, dava para usar a mesma figura umas duas ou três vezes. Né jóia?

Mapa, então, era o céu. Você comprava o contorno de algum mapa, feito de plástico, na Papelaria (alguém, aí, ainda sabe o que é isso?). Tinha o contorno do Brasil, da América do Sul, do Estado de São Paulo, do Brasil, da América do Sul, do Estado de São Paulo…É, véio, tinha um montão! Os que não tinham pra comprar a gente “colava” de livros, com papel de seda e lápis 6B ou papel vegetal, caneta nankin e o escambáu. Sempre tinha um exibido com uma lapiseira ToisonDor, da Tchecoslováquia (p**a m***a, esse país nem existe mais!).
E a pièce de resistence era a decalcomania. Vocês vão achar que eu cheirei e estou viajando, mas era assim mesmo. Você ia até a Papelaria (de novo, porque não tinha supermercado, então quase tudo era lá), comprava figuras soltas (“Moço, o Sr. tem decalque?”) ou folhas com várias figuras de temas misturados e levava pra casa.

Aí, separava as figuras que iam ser usadas, cortando com tesoura, e mergulhava-as em uma bacia com água (juro que não tô brincando) e ficava esperando. Às vezes, a figura propriamente dita se separava, sozinha, do seu suporte de papel plástico.
Outra vezes, você tinha que dar uma mãozinha e deslizá-la com cuidado para soltar. É desnecessário dizer que era bom comprar umas duas ou três da mesma, porque sempre rasgava. Depois, com muito jeito, pegava aquela coisa mole e molhada e fixava na posição requerida do seu trabalho. Se ficava torto? Claro que não!! Era tudo muito simples, como você pode ter percebido.
Pensando nessa trabalheira toda, tinha neguinho que já perdia a paciência e cortava logo uma figura da Encyclopædia Britannica (mãe do céu!) e tascava na folha de papel almaço.
E por que estou relembrando tudo isso, você, caríssimo leitor, poderia questionar.
E fá-lo (!?) com razão, pois é um passado remoto, lá na segunda metade do século XX. É que, com toda essa e outras dificuldades, nossos estudantes (com aquelas normais exceções) eram melhores. O “conteúdo” dos alunos era maior, é um je ne sais quoi que eles tinham que não estamos mais encontrando nos alunos de hoje (também com suas exceções), embora a informação disponível seja imensa e com acesso imediato. Se um aluno, dos anos de 1960/70, tivesse nas mãos a Internet, um Google, um Yahoo e um CD de cliparts com 140.000 figuras, dominaria o mundo! Juntando um programa de apresentação e um editor de textos, dominaria o sistema solar!
Na verdade, estou tentando chamar a atenção para um fato paradoxal. A informação está cada vez mais acessível mas vem ocorrendo um emburrecimento progressivo dos alunos. O computador deveria ajudar o homem a se aprimorar, mas o mau uso do computador, pelo próprio homem, o está degenerando. Vemos, na era digital, um processo de involução rápida e acentuada de imensas massas humanas. Talvez a minha geração e algumas exceções da geração dos meus filhos sejamos os últimos espécimens com senso crítico, pensamento lógico e discernimento. Percebam que eu me incluí neste grupo, semcerimoniamente.

Peça uma caneta para alguém. Ninguém tem, pois ninguém escreve mais, pelo menos não com letra cursiva. Só nos polegares com o “uatzap”. Dê um gibi para uma criança de 3 anos. Ela vai tentar virar de página do mesmo modo que desliza as imagens no celular. E vai ficar tentando sem conseguir, o que é pior.
Enquanto pais, professores e autoridades do setor educacional não se unirem para modificar os paradigmas da educação, no mundo, Darwin vai continuar se revirando na sua cova até o ser humano voltar a ser uma ameba.
Salvador Laviano Neto
slaviano.n@gmail.com
(*) Poema “Meus oito anos”, de Casimiro de Abreu. N.A.
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